História: Violência na Feira – Década de 1920

4 jun 2013 | 15:42 |
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cariraO presente artigo foi elaborado a partir do meu Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura Plena em História, intitulado O Centauro das Caatingas: Violência e honra em Carira, na década de 1920.

No segundo capítulo, onde comento sobre Carira e os carirenses do tempo de Brazilino Dionizio de Menezes (protagonista da minha História), um trecho é dedicado à feira livre daquela época, o qual procurei adaptar para escrever este texto.

Grande parte das informações sobre os aspectos de Carira, da sua feira livre, comportamento, tradições e hábitos populares, são de domínio público e foram coletadas a partir de uma amostra qualitativa de entrevistas realizadas com vários moradores de Carira que viveram no anos 20, inclusive no âmbito familiar.

A feira na década de 1920 era um evento semanal que reunia grande número de pessoas. Mais do que uma simples ocasião de compra e venda, era um espaço de sociabilidade. Sendo esta uma ocasião onde muita coisa acontecia, abordamos a violência nas feiras.

A feira livre era o ponto de encontro semanal das pessoas do povoado Carira, circunvizinhanças e parte do sertão baiano. Era realizada no mercado (barracão ou abrigo), na atual Praça Martinho de Souza, construído no período 1910-11, por iniciativa de Candido Bispo, pai de Brazilino.

O dia da feira era quase um ritual: era o dia de vestir a melhor roupa e até de calçar sapatos – poucas ocasiões mereciam esse requinte: a feira, a missa ou qualquer evento da igreja – de comprar carne, bovina principalmente, e comê-la cozinhada; os outros dias eram de carne assada que à falta de geladeira, era conservada salgada e posta ao sol para secar; comprar carne denotava alto nível social; em casa, quem primeiro se servia de carne era o pai ou a mãe, à falta destes, o mais velho dali, e estes serviam aos mais novos pela ordem de idade, com o que julgavam suficiente. Isso constituía um dos costumes tradicionais de nossa terra.

Em torno das bancas de fumo de corda, se ajuntavam, às vezes acocorados, fumantes inveterados, que no meio do fumaceiro e entre uma cuspida preta de fumo mascado e outra, puxavam um “dedo de prosa”[1] sobre chuva, gado, roça, vida alheia, “jogavam pulhas”[2] ou tiravam brincadeiras grosseiras.

Nas bancas de aguardente ou nas bodegas, vaqueiros em refinado chapéu de couro e gibão cantavam modas de aboio. Por ali também chegavam bêbados trôpegos a procurar arruaça, confusão, riscando o chão com ponta de faca ou punhal. Havia quem se comprazesse em desmanchar feira, procurando encrenca e desacatando a ordem pública, se mostrando valente para humilhar os outros. Esse era um comportamento comum em Carira.

A respeito desse tipo de valentia, notamos a partir de um trabalho de Renato Janine Ribeiro, que trata da importância da honra na sociedade cortesã, que se excetuando as devidas diferenças temporais, da Idade Média aos anos 1920, podemos perceber quase semelhantes comportamentos locais: “… entre os varões armados alguns fazem, da ofensa, profissão. Humilhar um igual é subtrair-lhe parte da honra e aumentar a sua própria (…)”.[3]

O dia da feira era ainda o da parra[4] de valentia, de reacender antigas contendas, dos “acertos de contas” e explosão de violência. Para iniciar uma briga, bastava xingar a mãe de alguém ou alguém com alguns dos piores nomes que havia: “cabra safado”, “sujeito”, ou “fie do cabrunco”, formando-se o “abre, abre”, com gente pegando no punhal, na faca, no parabellum ou chamando para “emendar as camisas”[5] longe da feira. Esse tipo de atitude nos leva a pensar que o isolamento e as condições de transporte em relação à sede do município (Vila de São Paulo, atual Frei Paulo) e à capital do Estado, davam margem a esse tipo de atitude que aflorava no dia da feira. Era como se houvesse uma espécie de “poder judiciário” autônomo e individual, fazendo parte dos códigos locais.

A primeira metade do século XX conheceu uma atmosfera em que demonstrações de valentia na feira honravam o homem; o mais notório seria o mais ousado, o mais brigão, o mais desafiador; as confusões eram resolvidas na hora, no calor dos acontecimentos.

FONTE: ALMEIDA, João Hélio de. O Centauro das Caatingas: Violência e honra em Carira na década de 1920. São Cristóvão, 2006. Monografia apresentada ao Curso de Licenciatura Plena em História da UFS.

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[1] Graduado em História e Especialista em Ciências das Religiões. Professor da rede pública estadual.

[2] Prosa nesse sentido tem significado de conversa informal. Então, dedo de prosa, quer dizer pequena ou rápida conversa informal.

[3] Pulha é gracejo caviloso, capcioso, dito com o intuito de colocar a outra pessoa em situação ridícula.

[4] RIBEIRO, Renato Janine. A Etiqueta no Antigo Regime. São Paulo: Moderna, 1999. p. 37.

[5] Parra tem sentido figurado como palavreado oco; parlapatice.

[6] Duelo em que dois contendores amarravam uma ponta da camisa aberta (de botão, logicamente) na do outro, para não haver condições de fugir e estarem próximos, cada qual com uma faca ou punhal e se danavam no combate. Quem fosse mais ligeiro saía com vida, se ambos não morressem.

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joao helioJOÃO HÉLIO DE ALMEIDA

Graduado em História e Especialista em Ciências das Religiões.

Professor da rede pública estadual.

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