Carira, uma história de ingratidão

5 abr 2013 | 04:27 |
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carira capa

João Hélio de Almeida[1]

 

Neste artigo, chamo à atenção para o quanto somos injustos com o vaqueiro João Martins de Souza, fundador de nosso município. Apresento a seguir sua contribuição histórica, contraditória ao desprezo que lhe foi imposto. Para tratar deste assunto, utilizo como referência, os livros “Memórias” e “Retalhos de História”, de Olímpio Rabêlo e “Carira”, de minha autoria.

De acordo com esses trabalhos, a partir de 1850, a região próxima ao Rio do Peixe, afluente esquerdo do Vaza Barris, conheceu um certo aumento populacional. Nessa região viviam os Dantas, família influente na política do sertão baiano.

Os Dantas trouxeram para onde hoje é Carira, o vaqueiro João Martins de Souza com os primeiros povoadores da nossa localidade. Eles partiram das margens do Rio do Peixe, no trecho de Bom Conselho (atual Cícero Dantas/BA).

José Aparecido de Andrade (Cidão)

Deve-se, portanto, ao citado tangedor de boiada, o início do nosso povoamento.

Esses pioneiros encontraram entre o atual Tanque do Carira[2] e o Saco Torto[3], uma pequena tribo chefiada pela índia Mãe Carira.

Em 1865 João Martins edificou a primeira casa, dois quilômetros a leste da aldeia indígena. Em seguida, foram construídas as de seus filhos Joaquim e Gonçalo.

Foi João Martins que acudiu a velha cacique, depois de cair perto de um pé de jequiri ao lado de sua casa, mortalmente ferida por ataque de cães. A mesma faleceu poucos dias depois e foi sepultada pelo vaqueiro, onde hoje é o canto noroeste da Praça Martinho de Souza. Sobre sua cova, ele fincou uma cruz de madeira. A partir de então, o local ainda sem nome, passou a ser chamado de Mãe Carira.

Cinco anos depois, à sombra do jequiri e ao lado da primeira casa, João Martins iniciou, aos domingos, uma pequena feira, que foi atraindo moradores para o lugar nascente.

No ano de 1875, o pioneiro erigiu uma tosca casinha de oração em volta da cova da índia, ao abrigo da qual se reuniam os fiéis, com o cemitério ao lado. E a cruz da sepultura ficou sendo a padroeira da capelinha e do lugar, nascendo assim a devoção à Santa Cruz. Com o tempo, a capelinha foi ampliada, transformada em Igreja e futuramente demolida, quando da inauguração da atual Igreja Matriz, na Praça Tobias Barreto.

Diante desses acontecimentos, edificação da primeira casa e conseqüente início da povoação, socorro à cacique ferida, início da feira e construção do primeiro referencial religioso, enfatizo a falta de homenagem a um dos que mais merece.

Talvez Carira seja um dos poucos municípios brasileiros a cometer tal ingratidão.

Por ignorância, alguns acreditam que o nome da Praça Martinho de Souza é uma homenagem a ele. Porém, o vaqueiro João Martins de Souza e o fazendeiro Martinho de Souza Freire são pessoas diferentes e com trajetórias de vida bem distintas. Para conferir, é só observar dentro da capelinha velha do Cemitério da Santa Cruz e ver a lápide do túmulo de Martinho de Souza e constatar que ele nasceu em 1865, justamente no ano em que Carira foi fundada. Decerto, ele não é o fundador.

Enquanto outras cidades orgulhosamente ostentam bustos, estátuas ou memoriais em homenagem ao seu fundador, ou pelo menos nome de rua, avenida, praça ou escola, nossa ingrata Carira não lhe prestou nenhuma homenagem, tampouco se observa interesse, ou pior, ele é ignorado.

Espero que algum dia nosso Parlamento Municipal se preocupe mais com nossas raízes, note essa falta de gratidão e corrija essa injustiça.



[1] Professor da Rede Pública Estadual, graduado em História e especialista em Ciências da Religião, pela UFS.

[2] Reservatório de água. Fonte pública localizada numa bifurcação em Y numa baixa que dá acesso ao Povoado Juá.

[3] Apesar de Saco Torto referir-se às imediações do Matadouro Público Municipal, do outro lado da BR235, antes, a região onde atualmente é o bairro Vila Nova, chamava-se Saco Torto.

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