BOTIJAS ENCANTADAS

5 ago 2013 | 18:44 |
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botijasA história de um povo também é feita através de seus mitos, lendas, tradições e folclore. Carira não está fora deste mundo imaginário de caiporas, lobisomens, luzernas, assombrações, botijas encantadas etc.

O mérito deste artigo não é comentar sobre a veracidade ou não desses “causos”, pois, o que interessa aqui é o saber passado de geração em geração, parte do nosso rico universo cultural.

Tenho em mente alguns desses “causos” de nossa tradição oral. Relatarei aqui dois, um contado por meu pai e outro por minha mãe, visto que é principalmente no ambiente familiar que esses contos são perpetuados.

Falarei sobre botijas, “tesouros” enterrados numa época onde o sistema bancário era deficiente quando não inexistente. Mas não é apenas do fato de serem riquezas guardadas debaixo do chão que as lendas se originaram. Uma atmosfera mágica envolve os contos sobre botijas. Há quem diga que só pessoas designadas pelo dono em vida ou “em morte” podem desencavá-las, pessoas desautorizadas podem sofrer os piores revezes na tentativa. Vale ressaltar que, como quase todos os contos de domínio público, há variações na lenda, de um lugar para outro.

O primeiro “causo” que venho relatar foi contado por meu pai, sobre um tio dele em segundo grau, conhecido como “Zé Latão”, que viveu seus últimos dias na Lagoa Verde, caminho da Genoveva. Foi “uma alma” que deu uma botija a ele no final da década de 1930, no Engenho da Jacoca, Macambira/SE. Ele foi cavoucar para tirar o dinheiro, quando estava já na terra fofa, então chegou aquele “negócio”, um redemoinho medonho com dois olhos de fogo no centro, que jogou uma baraúna em cima dele, que o fez correr, caindo mais na frente. Com tempo, “a visagem” veio de novo, e lá se vai ele novamente… Mas o tesouro desapareceu. Desencantou a botija. Da pancada da baraúna e da queda, ele acabou ficando aleijando de “um quarto”.

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A outra história foi contada por minha mãe, de uma botija que uma senhora chamada Jovença havia dado à minha avó materna, que atendia pelo apelido de Dona Dodó, dos Olhos d’Água. Dona Jovença era muito amiga dela e quando de seu falecimento, no final da década de 1950, com poucos dias veio em sonho pedir-lhe para ir a sua casa, no Carira Velho (Rua de Baixo), tirar uma botija que tinha deixado debaixo de uma pedra de piso de terra batida, nos pés da cama. Dodó perguntou assim: “Como é que eu entro na sua casa?”. “Peça a chave às meninas, você vá na missa assim um dia de domingo e você dorme na casa. Aí à noite você tira o dinheiro, fácil.” “Eu vou pensar.” Ela pensou e teve medo de ir. A falecida apareceu novamente, e a mesma conversa se repetiu. E como segundo algumas tradições, botija dada por alma não se conta a ninguém, Dona Dodó disse ao marido, desencantando o tesouro e a visagem.

Esses são apenas alguns exemplos de nosso precioso arquivo humano, que através destas linhas pretendo não deixar que se apague por completo.

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joao helioJOÃO HÉLIO DE ALMEIDA

Graduado em História e Especialista em Ciências das Religiões.

Professor da rede pública estadual.

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